houve um tempo em que você era jovem,
quando não conhecia ainda a febre da cólera
e, por não conhecê-la, não quebrava tantas louças
como se quisesse jogar fora os cacos
dos espaços vazios que você já não tem.
para você,
o suicídio era martírio subestimável,
pouco inflamável
dentro da confiança
que fabrica um ser,
mesmo antes de visitar
o próprio destino — apenas porque aceitou,
no homem ao lado, um futuro maduro,
caudaloso, de grandes coincidências
entre o agora, o sempre, o nunca.
talvez naquela época
receasse admitir a dúvida,
porque sabia que tê-la
era, no mínimo, ato de coragem
e nem sempre prescindível,
já que amor não é protótipo confiável
para os que querem reluzir no sangue a vida,
mas para os que já reluzem na vida o sangue;
pois confia-se sempre com punhos à corda,
com unhas roídas, com dedos flamejantes
ou supostamente frios caso toquem
o turvo corpo no ápice da sua decisão
de não ter filhos, mas na de matar filhos,
inúteis espermatozoides frescos
na fresta, no ralo.
e, portanto, gastar com balas
o dinheiro do salmão e do remédio,
como a precisar mastigar a si mesmo
e acidar o próprio estômago,
tornou-se facilmente parte da sua amarga rotina
— como se o silêncio dos cômodos da casa,
antes servido em pires, estivesse a não dar
frutos mais adocicados, mais sadios.
então você,
com balas entre os dentes,
dava os frutos com haste, casca, polpa,
larva, sabor. depois recitava para os objetos
as suas convicções a respeito da vida, a respeito
dos dias em que lhe acendia na gruta do peito
uma viscosa revelação e sobre o fato de que tão cedo
você precisaria implorar à natureza o dobro
de amor que uma pessoa, na solidão de sua clareza,
normalmente precisa para se manter de pé, fervendo água,
cozinhando arroz, esperando a roupa ao sol no varal secar;
ou simplesmente sobre o fato de não precisar escrever,
em alguma de suas mensagens, a palavra amor,
já que isso seria recorrer à artimanha à qual recorrem
os poetas quando almejam ofuscar o fracasso
ao subornar a palavra em vez de aprendê-la,
de educá-la, de salvá-la da domesticidade
que é dar a palavra ao mundo com a dívida
do sinônimo, do antônimo,
do significado, e você pouco sabe
que sabe sofrer.
até que os anos
junto com os presentes de namoro
e com as cobranças pelo correio chegaram,
como o corte dá na carne a lembrança
do sangue, e em pouco tempo
a dúvida instalou-se ali na sua frente,
como animal de estimação.
árvores
envelheceram,
envelheceram
ônibus,
sapatos,
mesas,
cortinas,
laboratórios,
livros,
tubos de ensaio,
telescópios
e certificados
antigos
de idiomas.
a vida fez questão de não comprar
cada vez mais roupas; fez questão de festejar
seu aniversário em tom monótono,
com risos baixos no rádio, e você passou a andar
na direção das pessoas como um navio de carga,
barulhento, a ponto de eliminar de súbito
os lábios de quem questionasse a força de suas ondas,
os olhos de quem lançasse sobre você um olhar fixo,
cheio de corais; como se, no trabalho,
tanto fizesse tê-las inteiras ou não,
arrumando papéis, servindo cafés,
decorando mesas, como se melhor fosse
transbordar nas pessoas o seu imediato suicídio.
só que antes da destruição do corpo,
do baque na praia,
lembra que ontem você precisou olhar à janela
a pintura em movimento do horizonte
e, em vago limpar de nuvens,
a vida se refez dentro de si.
lembra que hoje, assim como em outros dias,
você precisou casar a fome com uma laranja
e meio mamão e beber café com leite
segurando a alça de uma xícara.
— Poema do livro Alva casa dos escuros.