para Carlos Drummond de Andrade
as palavras estão maduras, e é dia de colheita.
eu deveria saber devido à queda barulhenta
de uma delas aqui no piso de casa esta manhã.
em geral, todo fruto maduro cai no jardim
ou em áreas que tenham árvores sedimentadas.
como a árvore das palavras aqui sou eu,
é no chão de dentro de casa que elas caem.
as mais pesadas são sempre as primeiras
a cair, mas não é regra que sejam elas
as que mais manchem de suco o piso seco.
algumas — para o meu espanto — não sofrem
nem mesmo um arranhão, uma fissura
no atrito com o piso: sabem cair feito pérola.
o problema é que as mais pesadas, quando
caem, são sempre as que provocam barulho,
e o barulho não é alto só porque acorda
uma jiboia, um cavalo, uma leoa ou ursos
e pássaros que dormem, e sim por não deixar
mais dormir o poeta que ouviu a sua queda.
— Poema do livro Pequenos incêndios diários.